“O Novo Pentecostes fará florescer na Igreja sua riqueza interior e a estenderá a todos os campos da atividade humana. Fará surgir um mundo novo, reafirmando, de maneira cada vez mais alta e persuasiva, a boa nova da redenção, o anúncio luminoso da soberania de Deus e a fraternidade humana, da caridade e da paz prometida aos homens de boa vontade, que dão resposta à bondade do céu”

João XXIII, Discurso de conclusão da 1ª sessão do Concílio, no dia 8 de dezembro de 1962

Apresentação

Em 1966, ao voltar de Strasbourg, do meu doutorado, depois de haver acompanhado de perto os trabalhos do Concílio, durante três anos, tendo de responder a muitas solicitações, elaborei um texto em que codificava em 100 proposições o ensinamento conciliar: Novo Pentecostes em cem proposições. São Paulo, 1966.

Revendo este texto, percebi que as mudanças então previstas na Igreja realizam-se efetivamente no atual pontificado.

Pensei então retomar essas cem proposições, em homenagem ao papa Francisco, contribuindo para que se evidencie que o Espírito que hoje nos fala por ele é o mesmo que falou por João XXIII, no seu profético Concílio.

Proêmio

Podemos dizer que os seis anos do pontificado de Francisco passarão à história como um tempo de mudança, comparável às grandes transformações na Igreja, em seus dois mil anos de existência histórica, semelhantes às do século IV, quando se tornou religião oficial do Império, às dos séculos XII-XIII, com o surgimento da escolástica e ás do século XVI, com a Reforma.

A atual mudança nasceu com o carisma de João XXIII, começou a tomar forma na história, no Vaticano II e se torna um acontecimento irreversível agora, no pontificado de Francisco.

O papa João XXIII, ao abrir o Concílio em 11 de outubro de 1962 e ao encerrá-lo, em 8 de dezembro, desse mesmo ano, constatando a orientação que haviam tomado os trabalhos, previu a profunda transformação que se operaria na Igreja, profetizando então que seria um Novo Pentecostes”.

Como o primeiro Pentecostes, reconhecemos hoje, o Vaticano II foi um fermento do Espírito lançado na História, marco irreversível no caminho da Igreja através do tempo.
Nem todos o compreendemos até hoje. Ainda apegados aos modos de pensar e de agir do passado, não percebemos seu extraordinário alcance ou não o aceitamos. Mas, a obra de Deus tem vencido os obstáculos múltiplos da nossa cegueira e inércia, preparando a Igreja do século XXI, para um despertar comparável ao da Igreja do primeiro século!

A etapa conciliar, propriamente dita, encerrou-se em 1965. Nos primeiros anos assistimos à sua repercussão na Igreja: foram anos agitados e difíceis. O concílio punha em questão a maneira habitual de pensar na Igreja e muitas estruturas sagradas em que sequer se ousava mexer.

Foram cinquenta anos de ambiguidade: os textos dos dezesseis documentos promulgados eram longos e, apesar da preocupação pastoral de todo o Concílio, guardavam traços evidentes das formas habituais de pensar e de agir, sem o que não se poderia ter obtido a quase unanimidade exigida dos 2.500 bispos que os deveriam aprovar. Justamente por isso, durante quase 50 anos discutiu-se a sua interpretação.

Para que a nova visão da Igreja e consequente renovação de suas práticas passassem a ser consideradas determinantes, foi preciso esperar, em 2013, a eleição do primeiro papa que não havia participado do Concílio, e o recebeu como verdadeira novidade do Espírito a ser efetivada na realidade histórica da Igreja, um novo Pentecostes.

Em 1966, solicitado por diversos grupos de fiéis, resumimos as mudanças, em cem proposições extraídas dos dezesseis textos promulgados.

Novo Pentecostes em cem Proposições - Francisco Catão (1966)

Retomando hoje esse trabalho, ficamos surpresos de ver que, na sua grande maioria as proposições correspondem ao que a Igreja está de fato vivendo, nesses seis primeiros anos do pontificado do papa Francisco. Resolvemos então publicá-lo, como uma singela homenagem ao atual bispo de Roma.

O Vaticano II se distingue pelo seu caráter pastoral. Todos os vinte concílios ecumênicos que o precederam, desde Nicéia, no século IV, foram dogmáticos e/ou reformadores, visavam condenar erros na fé, heresias, ou costumes, nas práticas da Igreja. Convocamos um concílio pastoral, dizia João XXIII, no discurso de abertura, não para condenar erros ou corrigir normas e comportamentos defeituosos, mas para flexibilizar a doutrina da fé, proclamá-la na linguagem de nosso tempo e acolher com misericórdia todas as pessoas que buscam o bem e a verdade, em especial os que acolhem a Jesus, na unidade de uma só Igreja, de acordo com o propósito explícito de Jesus.

Essa aspiração profética de João XXIII se está realizando em nossos dias. Vivemos a passagem do primado da instituição para a primazia da fé, tal como a viveram Jesus, no íntimo de seu coração, seus discípulos e as primeiras comunidades cristãs.

Vale a pena ler os textos conciliares nessa perspectiva de mudança, não só para melhor os entender, mas também para melhor avaliar o alcance das mudanças que se estão efetivamente operando no pontificado de Francisco.

A realidade da comunhão com Deus, que professamos na fé, é para ser vivida no mundo; histórica e socialmente falando, os cristãos devemos nos distinguir de nossos contemporâneos, pelo amor de todas as pessoas com que convivemos. A bondade e a prática da justiça, como para os cristãos dos primeiros tempos, devem ser a nossa marca, como revela a famosa Carta a Diogneto.

Em Pentecostes o Espírito levou os apóstolos a proclamar a salvação na língua de cada um dos estrangeiros, que acorriam a Jerusalém, indicando que o Evangelho devia ser acolhido em todas as culturas através da história. João XXIII convocou o concílio para que a fé fosse confessada, no modo de pensar e de falar de nosso tempo, com os aperfeiçoados instrumentos de pesquisa e de comunicação de que dispomos. Esse é precisamente, o programa do papa Francisco: voltar ao Evangelho para que a Igreja se torne capaz de proclamá-lo, em face dos grandes problemas e desafios da atualidade.

Os documentos do Vaticano II

O 21º concílio, no século passado, seguindo a tradição dos anteriores, especialmente dos dois últimos, Trento (s. XVI) e Vaticano I (s. XIX), publicou uma série de documentos, excepcional quanto ao número, 16, e quanto a sua natureza canônica (4 Constituições, 9 Decretos e 3 Declarações), inovação que se deve ao fato de que, além da Igreja, na sua natureza (constituições) e na sua organização (decretos) o Vaticano II procurou se posicionar em relação ao mundo secularizado de nossos dias, verdadeira novidade para a Igreja (declarações).

Além dessa classificação canônica, há diversos modos de ordenar esses documentos. O historiador adotará a ordem cronológica, reveladora de como foram surgindo os problemas e, sobretudo, como foi evoluindo o clima da assembleia de 1962 a 1965. Na perspectiva em que nos colocamos, para evidenciar a natureza das mudanças que foram acontecendo, ao largo das quatro seções anuais, preferimos ordenar os documentos pelos quatro grandes categorias de temas de que tratou o Concílio:

  • a Palavra de Deus e sua função na Igreja, especialmente missionária;
  • A Igreja, expressão da salvação universal, de toda a humanidade na pluralidade dos tempos e na rica diversidade das culturas
  • o diálogo religioso, que regulamenta de maneira totalmente nova o relacionamento dos cristãos entre si e com os membros de outras religiões;
  • o mundo, finalmente, que os cristãos passam a encarar com um olhar renovado, para desempenhar o papel que lhes cabe na sua construção, ou seja, na realização do desígnio salvador de Deus sobre todos os homens.

Assim dispostos, os documentos conciliares deixam perceber que o importante do Vaticano II, diferentemente dos concílios anteriores, não tanto foram os temas abordados, mas a nova perspectiva em que somos convidados pelo Espírito, a encarar a Revelação de Deus, a Igreja e sua posição no mundo de hoje, não tanto como organização da religião cristã, mas como vida, que brota da fé, acolhimento de Deus e testemunha do Reino de Deus, em gestação na História.

I- A PALAVRA DE DEUS
Na Igreja, especialmente missionária:

Constituição sobre a Revelação Divina (DV)
Decreto sobre Missões (AG)

II- O POVO DE DEUS
A Igreja expressão da salvação universal:

Constituição sobre a Igreja (LG)
Constituição da Liturgia (SC)
Decreto sobre bispos (CD)
Decreto sobre os padres (PO)
Decreto sobre os Seminaristas (OT)
Decreto sobre os Religiosos (PC)
Decreto sobre os Leigos (AA)

III- O DIÁLOGO RELIGIOSO
O Ecumenismo e o Diálogo inter-religioso:

Declaração sobre a liberdade religiosa (DH)
Decreto sobre o ecumenismo (UR)
Declaração sobre as religiões não cristãs (NA)

IV- O MUNDO
O papel dos cristãos na vida da sociedade:

Constituição Pastoral da Igreja no Mundo de Hoje (GS)
Decreto sobre os meios de comunicações (IM)
Declaração sobre a educação cristã (GE)

As Cem proposições

As cem proposições estão dispostas em torno dos quatro grandes tópicos que foram profundamente renovados pelo Concílio. Com sua ajuda iremos descobrindo aos poucos, o alcance dos documentos conciliares, facilitando-nos a obter uma visão mais orgânica do trabalho conciliar, permitindo-nos melhor perceber o sentido da ação do Espírito de Deus na Igreja em nossos dias!

Para facilitar o acesso aos textos correspondentes a cada proposição, indicamos o número do paragrafo a que correspondem, pois todos os documentos, além os capítulos, estão divididos em parágrafos numerados.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *